Bozós, Jagodes e Panguás - Tudo no mesmo saco.
A pessoa tímida leva sempre com ela um fardo. Um pacote, uma bolsa, uma mochila, não importa a forma que tenha, mas está sempre ali. Nessa bagagem é possível encontrar de tudo: dois pés esquerdos de um mesmo calçado, que possibilitam tropeçar em toda e qualquer coisa; um dicionário com as palavras e expressões mais inadequadas para cada momento e, claro, um filme chamado “O que vão pensar de mim?” bem esse item é autoexplicativo. Daí o tímido sai de casa com seu saco de coisas e sempre que necessário afunda o rosto dentro dele, como se estivesse procurando algo que ele mesmo sabe que não vai achar. Mas quem se importa? Importante mesmo é que durante esse momento sua presença será ignorada e ninguém perceberá que ele está ali. Assim volta para casa seguro e sem maiores transtornos ou constrangimentos. Até o dia que roubam seu pacote. Um indivíduo tímido sem seu Kit de Estabano & Camuflagem? Não funciona. Então o jeito é improvisar e carregar alguma outra coisa com outras coisas dentro.
Apela para um baú que costuma deixar em casa bem guardado e sai. Esse é bem diferente de seus embrulhos. É bem maior, mais difícil de levar e com um acabamento encantador, tão imponente que as pessoas nem tentam abrir, apenas admiram. Ele vai e volta sem que ninguém o ameace ou questione, a aparência do baú já fala por si: “Aquilo? Só pode servir para guardar milhares de coisas interessantes e divertidíssimas!” é que eles imaginam. Chegando em casa , sente alívio e… alívio - a sensação é tão boa que resolve senti-la duas vezes- afinal de contas, para quem está acostumado a carregar coisas menores e mais simples, empurrar e arrastar um baú deslumbrante o dia todo não é nada fácil.
Finalmente ,quando está seguro no sofá da sala, de onde acredita que só deveria sair em dias especiais ou acontecimentos como fim do Calendário Maia, vai checar o conteúdo para ter certeza de que ninguém mexeu lá enquanto estava distraído. Abre a tampa, olha bem no fundo do baú vazio e sorri ao ver um papel velho todo cheio de dobras, se estivesse desdobrado seria preocupante porque alguém teria mexido. Antes de fechar resolve relembrar o que há algum tempo guardou num lugar tão vistoso. “A verdade é que sou um bozó, mas se você chegou até aqui acho que já descobriu isso.” Dobra o papel, põe de volta no lugar e vai dormir.
